Hotspots

 Trinta e quatro áreas de alta biodiversidade são prioridade mundial de conservação. Originalmente, elas correspondiam a 15,7% da superfície terrestre do planeta. Hoje cobrem apenas 2,3%. Juntas, ainda abrigam 50% das espécies de plantas e 75% dos animais ameaçados de extinção. Mas a proteção é precária: só 5% dos remanescentes são parques ou reservas.

Todas as teses e exaustivos levantamentos científicos das espécies animais e vegetais terrestres já feitos ainda não foram suficientes para identificar nem 10% da biodiversidade do planeta. Restam milhares de incógnitas, sobretudo no universo da Microbiologia e nos reinos das águas, doces ou salgadas. Mesmo entre as espécies conhecidas – grandes árvores e grandes vertebrados, por exemplo – os detalhes sobre reprodução, fisiologia ou hábitos e comportamento, e mesmo a relação com o ambiente onde vivem são 99% desconhecidos. Como uma grande biblioteca de preciosos volumes, a biodiversidade do planeta ainda tem prateleiras e prateleiras de tesouros fechados, cujos títulos e conteúdo ainda são desconhecidos. No total, não sabemos quantos são os volumes ou para que servem, mas sabemos que não se distribuem de forma homogênea. E já conhecemos tanto os caminhos para sua destruição como para sua conservação. E em ambos os casos todo o conjunto é afetado: mesmo sem saber o que dizem os livros podemos queimar ou salvar uma biblioteca inteira, assim como podemos destruir ou conservar o conjunto de animais e plantas de um ecossistema, mesmo sem identificar todas as espécies.  

  Desmatamentos, poluição, contaminação, fragmentação de hábitats, coletas e introduções indiscriminadas, consumo exagerado de recursos e desperdícios estão entre as pressões destrutivas, exercidas de forma pulverizada por milhões de agentes econômicos e indivíduos. O caminho da conservação é bem mais difícil e custoso, de alguns poucos contra a corrente, e, portanto, exige a eleição de prioridades. Por isso um grupo de conservacionistas e pesquisadores criou o conceito de hotspots de biodiversidade. São áreas, regiões ou ecossistemas sob forte pressão, onde mais de 70% da vegetação natural já foi alterada e o que resta concentra um grande número de espécies animais e pelo menos 1.500 espécies vegetais, com alto índice de endemismos, ou seja, espécies exclusivas, que não existem em nenhum outro lugar do planeta. A pergunta que o conceito de hotspots procura responder é: em que áreas cada dólar destinado à conservação contribui mais para reduzir o ritmo corrente de destruição da biodiversidade global?

 O primeiro a usar esse conceito de hotspots foi o ecólogo inglês Norman Myers, em 1988. Na época ele apontou 10 áreas prioritárias para a conservação em todo o mundo. Doze anos depois, em 2000, a entidade ambientalista Conservação Internacional (CI) divulgou os estudos de mais de uma centena de cientistas de 40 países, que após 3 anos, identificaram mais 15 hotspots, totalizando 25. As principais informações disponíveis sobre as espécies e ecossistemas dessas 25 áreas foram resumidas num livro de 430 páginas ricamente ilustradas por 350 fotos, mais 30 mapas e 50 tabelas, com o objetivo de ajudar as autoridades de cada país a desenhar uma estratégia mais precisa de conservação da biodiversidade, destinando os sempre escassos recursos às ações mais urgentes.  

Num trabalho de revisão permanente, realizado a partir de novas informações e novos estudos que preenchem lacunas de conhecimento, agora o número de hotspots sobe para 34, de acordo com os especialistas que assinam um novo livro, lançado em Washington, nos Estados Unidos, neste dia 2 de fevereiro.

As novas áreas consideradas prioritárias para a conservação mundial são os Bosques Madreanos (México); a região de Maputo (costa leste da África); as montanhas da África Central (Rift Valley); o Chifre da África; as montanhas da Ásia Central; a Anatólia Iraniana, no Oriente Médio; a cadeia do Himalaia; o Japão e a Melanésia. Somados, os remanescentes ainda intactos dos 34 hotspots – ‘novos’ e ‘antigos’ – ocupam apenas 2,3% da superfície terrestre (3,3 milhões de km2), mas abrigam 50% das espécies de plantas e 75% dos animais vertebrados ameaçados de extinção.

“O primeiro livro nos ajudou a reunir parceiros importantes em torno de um fundo especialmente criado para a proteção dos hotspots localizados em países em desenvolvimento, o Critical Ecosystems Partnership Fund (CEPF)”, conta Russel Mittermeier, da CI, coordenador do trabalho. “Foi o ‘empurrão’ final para a entrada do Banco Mundial na parceria. E esse fundo já consolidou US$ 125 milhões para investimento somente nos hotspots”. O CEPF conta também com contribuições do governo do Japão, da MacArthur Foundation, do Fundo Ambiental Global (GEF) e da própria CI. O Fundo Global de Conservação, mantido pela CI com recursos da ordem de US$ 100 milhões, Fundação Gordon e Betty Moore, usa igualmente o conceito de hotspots para definir as prioridades de investimentos.  

A expectativa, agora, é multiplicar as ações de conservação, tanto nos hotspots ‘antigos’ como nos recém identificados, com base nos bons resultados já obtidos junto ao governo de alguns países, como as Filipinas, a Bolívia e o Peru, que integraram o conceito dos hotspots nas suas estratégias nacionais de conservação. Ou Madagascar, cujo presidente, Marc Ravalomanana, anunciou a triplicação das áreas protegidas em cinco anos, medida já em fase de implementação. Mesmo países antes alheios a qualquer esforço de conservação ambiental, como a Libéria – localizada no coração do hotspot das Florestas Guineanas da África Ocidental – começam a aprovar leis de proteção.  Hoje, apesar de sua importância pela riqueza em espécies que abrigam, 95% das áreas consideradas como hotspots não contam com nenhum tipo de proteção. Só 5% já são parques ou reservas. Cerca de 313 milhões de pessoas vivem a menos de 10 km das áreas protegidas dentro dos hotspots e 2 bilhões vivem nas áreas originalmente ocupadas pelos ecossistemas que os compõem.  

Além das pressões de destruição de hábitats, caça e coleta, alguns hotspots são especialmente sensíveis às mudanças climáticas, caso do Karoo das Suculentas e da Província Florística do Cabo, ambos na África do Sul. “Os cenários elaborados pelos especialistas mostram que mesmo uma pequena mudança climática nessa região poderia ter um grande impacto sobre as plantas endêmicas lá existentes”, observa Mittermeier. E diversos hotspots estão em áreas de conflito, em zonas de guerra, de guerrilha ou dominadas por traficantes de drogas e contrabandistas de minérios. É o que acontece nos dois hotspots da Colômbia – Andes Tropicais e Choco; na ilha de Mindanao, nas Filipinas; nas Florestas Guineanas, e na região de Aceh, ao norte de Sumatra, inserida no hotspot da Região do Sunda. “Os conflitos trazem problemas adicionais para a conservação, uma vez que os parques e reservas ficam sem a proteção dos sistemas oficiais”, diz o coordenador do estudo.  

    Os ecossistemas tropicais ainda predominam entre os hotspots, visto que são naturalmente mais ricos em espécies e, sobretudo, em endemismos. Mas os ‘novos’ hotspots incluem algumas florestas subtropicais e temperadas e ecossistemas mais secos, como os Bosques Madreanos de carvalhos e pinheiros, a vegetação das montanhas da Ásia e as áreas identificadas no Oriente Médio. A maior surpresa, nesse novo estudo, foi a inclusão do Japão, cujos dados específicos antes eram desconhecidos dos conservacionistas. No exíguo território japonês ocorrem 5.600 espécies de plantas (1.950 endêmicas), 368 espécies de aves (15 exclusivas) e 214 peixes de água doce (54 endêmicos). O governo do Japão já se comprometeu a destinar US$ 25 milhões à conservação dessas riquezas biológicas.  

A consideração dos peixes de água doce, aliás, foi outra novidade do presente estudo. Anteriormente também não se tinha informação suficiente sobre eles. Todos os peixes continentais foram incluídos, mesmo aqueles que habitam águas salobras ou salinizadas. Um total de 6.689 espécies de peixes, ou 55% do total mundial conhecido, vivem nos 34 hotspots, sendo que 3.418 delas são endêmicas. O hotspot com mais alta diversidade em peixes é o Indo-Burma, com 1.262 espécies (553 endêmicas). Os seres vivos dos oceanos ainda serão objeto de avaliações futuras, assim como os invertebrados, que constituem, na verdade, uma das classes de animais mais numerosas. Alguns bancos de dados – sobre formigas, besouros e cupins, por exemplo – já permitem comparações. E mostram que os hotspots são igualmente ricos em invertebrados, abrigando pelo menos 30% das espécies conhecidas.  

   Entre os ‘novos’ hotspots, o mais sujeito a mudanças radicais, num curto espaço de tempo, é o da Melanésia – composto pelas ilhas Bismarck, Salomão e Vanuatu. Há uma década, seus ecossistemas estavam praticamente intactos, mas o desmatamento acelerado para a implantação de fazendas de dendê reduziu as áreas naturais a menos de 30% da extensão original, repetindo a história da Indonésia, dez anos depois, e justificando sua inclusão na lista das regiões críticas.  De todos os 34, o hotspot de mais alta diversidade em plantas vasculares é o dos Andes Tropicais, abrangendo terras do Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Devido ao gradiente de altitude – que sai do altiplano frio e seco, lá no alto, e chega à úmida e quente Amazônia, no pé das montanhas – ali ocorrem 30 mil espécies de plantas, metade das quais é exclusiva daquela região. A diversidade de aves, anfíbios e mamíferos também é a maior do mundo. São 1.728 espécies de aves, das quais 584 são endêmicas; 1.155 de anfíbios com 664 exclusivos e 569 mamíferos, com 75 endêmicos, entre os quais o único urso da América do Sul, o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus). As ameaças a tais tesouros naturais incluem extração de madeira, mineração e expansão da agricultura. A caça e o tráfico de animais silvestres constituem outros obstáculos à conservação, sobretudo nos chamados barreiros, paredões de argila com alta concentração de sais minerais, para onde são atraídos grandes bandos de araras, papagaios, periquitos e também alguns mamíferos de grande porte, como antas, queixadas e catetos. Os animais se reúnem nos barreiros para aproveitar os nutrientes, mas ficam muito expostos aos caçadores.  

Outra ‘arca de Noé’ natural é a região do Sunda, que inclui a Malásia e as ilhas indonésias de Bornéu, Bali, Java e Sumatra, na região de transição entre a Ásia e a Austrália. São 25 mil espécies de plantas (15 mil endêmicas), mais 950 espécies de peixes de água doce (350 endêmicas) e 771 espécies de aves (146 exclusivas). Entre seus 331 mamíferos, os mais famosos são os orangotangos, tigres e rinocerontes, distintos de seus ‘parentes’ do continente asiático. A excessiva fragmentação devido à ação agressiva de madeireiros e mineradores é o principal problema.   

A maior concentração de espécies diferentes num território limitado ocorre em Madagascar, que realmente parece esconder algum ‘laboratório de mistura das espécies’, tal a variedade de estranhos formatos e cores entre os seus habitantes silvestres. Essas espécies evoluíram independentemente das espécies do continente africano, devido a uma separação de pelo menos 160 milhões de anos. Assim, numa área comparável ao estado de Minas Gerais, o país abriga, com exclusividade, 5 famílias de primatas, das 17 que existem em todo o planeta. Entre elas estão os lêmures, dos diminutivos lêmures-ratos (do gênero Microcebus), que pesam em média 60 gramas, ao ágil indri (Indri indri), de até 10 kg, capaz de pular de uma árvore para outra como bem retrata o longa metragem infantil Dinossauro (Estúdios Disney). Mas ali estão também algumas das espécies em situação mais precária, porque são naturalmente raras e estão sob grande pressão devido às condições sociais da população, extremamente pobre e dependente da extração de recursos naturais. A esperança é a estruturação do ecoturismo, que apenas começa a existir como fonte alternativa de renda.  

Dois biomas brasileiros figuram entre os 34 hotspots mundiais: a Mata Atlântica e oCerrado. Embora abriguem altíssima biodiversidade, a Amazônia e o Pantanal não figuram na lista, felizmente, porque ainda estão bastante preservados.

A Mata Atlântica está em quarto lugar na diversidade de plantas, com 20 mil espécies, sendo 8 mil endêmicas. Também é alto o número de aves – 936 espécies, 148 endêmicas – e de anfíbios – 475 com mais da metade (386) vivendo exclusivamente em seus ecossistemas. Outro número alto é o de mamíferos (263), o décimo maior entre os hotspots. “Devido às características da Mata Atlântica e à pequena porcentagem que ainda resta, uma das estratégias mais importantes para a conservação no Brasil é o fortalecimento das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) existentes e a implementação de novas”, comenta Russel Mittermeier. “Há RPPNs fundamentais, como a da família Abdalla, em Caratinga (MG), que abriga vários grupos de muriquis (Brachyteles aracnoides), o maior primata das Américas e endêmico deste hotspot. Sem essa RPPN, o muriqui estaria ainda mais ameaçado”.

O Cerrado brasileiro tem 10 mil plantas, 800 espécies de peixes de água doce e 605 espécies de aves. Em ambos os casos, a expansão da agricultura e das cidades é o principal problema. O Cerrado inclui diversos tipos de vegetação, abertas – campos limpos, sujos e rupestres – e fechadas, como o cerrado e cerradão. Mas nenhuma delas parece ser mais crucial, no atual estágio de avanço do homem, do que as matas de galeria, nas margens dos rios, justamente um dos tipos de vegetação mais atingidos pelos desmatamentos. As matas de galeria são fundamentais para a preservação dos recursos hídricos, num meio onde as chuvas são relativamente abundantes – 1.100 a 1.200mm ao ano – mas muito mal distribuídas. Também têm a função de formar corredores entre os fragmentos de vegetação nativa, utilizados como passagem para a fauna e como meio de dispersão de plantas.   


A estratégia de proteger – ou mesmo recuperar – grandes corredores de vegetação nativa, por sinal, é uma das medidas de conservação recomendada para os hotspots. Em vários casos, a Conservação Internacional trabalha com os governos dos diversos países nos quais se inserem os hotspots para acertar o estabelecimento de corredores que ultrapassam fronteiras. Uma das maiores vitórias, neste sentido, foi a criação, no ano passado, do Corredor Vilcabamba-Amboró, entre o Peru e a Bolívia, no hotspot dos Andes Tropicais. São 30 mil km2, num mosaico de 19 parques e reservas ambientais, mais as zonas de amortecimento e terras indígenas, um exemplo que renova a esperança de que a situação crítica dos animais e plantas nos hotspots possa, de fato, ser revertida.

Fonte:Revista Terra da Gente

By: Jack Araújo

Bom fim de feriadão para todos!!!

O conceito Hotspot foi criado em 1988 pelo ecólogo inglês Norman Myers para resolver um dos maiores dilemas dos conservacionistas: quais as áreas mais importantes para preservar a biodiversidade na Terra?

Ao observar que a biodiversidade não está igualmente distribuída no planeta, Myers procurou identificar quais as regiões que concentravam os mais altos níveis de biodiversidade e onde as ações de conservação seriam mais urgentes. Ele chamou essas regiões de Hotspots.

Hotspot é, portanto, toda área prioritária para conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaçada no mais alto grau. É considerada Hotspot uma área com pelo menos 1.500 espécies endêmicas de plantas e que tenha perdido mais de 3/4 de sua vegetação original.

No Brasil há dois Hotspots: a Mata Atlântica e o Cerrado. Para estabelecer estratégias de conservação dessas áreas, a CI-Brasil colaborou com o Projeto de Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade dos Biomas Brasileiros, do Ministério do Meio Ambiente. Centenas de especialistas e representantes de várias instituições trabalharam juntos para identificar áreas prioritárias para a conservação do Cerrado (em 1998) e da Mata Atlântica (em 1999).

Bom fim de feriadão para todos!!!


Anúncios
Explore posts in the same categories: Ecologia

Tags:

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: